
Uma vida televisiva
Um corpo escultural, com medidas literalmente imprescindíveis. Uma carreira extremamente bem sucedida e um príncipe, montado em um cavalo branco e com aquele aparato romanesco. É esse o sonho sonhado por maior parte das mulheres. Digo com precisão, pois já fui uma destas. Agora não mais sou. Mas Lucy é uma destas milhares de devaneadoras que conheço. Ela trabalha no mercado publicitário, então, tudo gira em torno da sua mente fantasiosa. Ela espera um encontro ideal há 12 anos. E o encontro ideal de Lucy não é nada convencional, assim como sua mente. Ela imagina que seu encontro deve ser uma campanha de shampoo: Ela linda e maravilhosa atravessando uma movimentada avenida de uma metrópole e ele um charmoso homem que pára o carro importado bruscamente ao sentir o aroma que exala de seus cabelos, ele corre em sua direção, a abraça e a rua se enche de flores que marcam a fragrância do shampoo.
Mas a vida, a vida real passa muitíssimo longe de propagandas publicitárias e Lucy nem havia notado que algo se passava entre ela e um cliente da agência onde trabalhava. Ele aparecia pelo menos duas vezes na semana para conferir o andamento dos trabalhos que havia solicitado e sempre arranjava algum trabalho para ser feito. Mas Lucy não estava nem aí, não tinha nada de romântico, nenhum violino, nenhuma rosa, nada de glamour. Para ela, não aconteceria nada entre os dois, pois ele a via sempre com olheiras, de uniforme, com um visível mau humor matinal. Embora ela sentisse as mãos suarem e o coração acelerar um pouco quando ele se aproximava, não conseguia perceber que ali estava nascendo algo, nem percebia que seus olhos constantemente se encontravam com os deles e que ele estava sentindo algo por ela e ela por ele. Passaram alguns meses, o cliente de Lucy, sumiu.
Certo dia ela foi convidada para um almoço de domingo na casa de praia de uma amiga e coincidentemente reencontrou seu cliente lá, ele era amigo do namorado da amiga de Lucy.
O vento soprava e o dia não estava muito ensolarado, mas a praia estava linda, com este cenário ao fundo, Lucy avistou o seu cliente, ele caminhava pela areia, vindo em sua direção, do interior da casa vinha um som gostoso de bossa misturado com as ondas do mar. Foi o bastante para Lucy repentinamente e surpreendentemente gritar: Hugooo!!!
O coração foi a mil, as mãos suaram e então ela percebeu que Hugo era um príncipe.
Instantaneamente o coração de Lucy desacelerou, as mãos ficaram tremulas e a face atônita, pois percebeu que Hugo estava acompanhado e diga-se de passagem, muito bem acompanhado. Abismada com o final da sua triste propaganda, Lucy pensou em se recolher, achar algum cantinho e chorar. Mas que nada! Ignorou as lágrimas, o cenário perfeito que havia visto e já bolou em sua mente copiosa uma propaganda mais invasiva, onde Hugo deixaria a atual amada para ficar com ela, bolou mentalmente todo um cenário e contexto que resultariam em um desfecho feliz.
Lucy não está se importando, tudo o que ela quer é uma vida televisiva, onde o príncipe seja encantado e ela a princesa despertada. Se não for assim, ela não quer. Pena que os dias não são inacabáveis e que sonhos, quase sempre, só podem ser propagandas publicitárias.
Jaque Crivilatti